Já era noite, estava cansada, normalmente gosto de ouvir conversas no ônibus aprendo um pouquinho com cada pessoa, sobre como cada uma é, mas naquele dia só queria me concentrar na leitura dos dois capítulos de Memórias de um Sargento de milícias. Minha atenção então foi tomada pelo diálogo de uma menina de aproximadamente cinco anos e sua mãe, que estavam sentadas no banco de trás.
Pelo contexto percebi que a menininha estava voltando da casa de uma amiga da escola. A pequena pergunta a sua mãe: - Mãe, você tinha amigas? Você lembra delas? Qual era o nome? O que aconteceu?Pude sentir a frieza na voz da mãe: - Claro que tinha amigas, mas com o passar do tempo fomos nos afastando, cada uma foi pra um lado e já nem me recordo do nome delas. E a menina então, indignada diz: -Eu nunca vou esquecer do nome e nem vou me afastar das minhas amigas.
Aquela sensação fria subiu pela minha espinha, lágrimas queriam saltar dos meus olhos. Sim, eu já pensei o mesmo que a menina, que nunca me afastaria dos amigos, hoje olho ao redor e vejo, tantas preocupações, minhas amigas trabalhando, na faculdade, outros com problemas de saúde, outros quem nem sei o que aconteceu, aquelas que eu prometi fidelidade, passeios regulares, promessas ao vento infelizmente. A vontade foi de poder ligar pra todo mundo, abraçar todo mundo, todos aqueles amigos que eu perdi o contato e até mesmo aqueles que mesmo sem o contato diário dá a impressão de que estamos conectados, queria todo mundo do meu lado naquele instante, quem sabe uma boa festa pra colocar o papo em dia, o quem sabe, só poder dizer um "há quanto tempo".
Crescer é estranho, infelizmente somos induzidos a mudar de hábitos e não mais podemos cabular aulas pra ir ao cinema das três, pra deliciar aquele pacote de trakinas, o dividir dadinhos no intervalo. Os dias estão lotados, já não temos tempo livre pra ficar com quem tanto amamos e apenas lamentamos. Tempo ocupado, coração vazio. Aquela sensação de falso amadurecimento.
Era eu, meu livro e a menina no banco de trás que agora dormia no colo de sua mãe.